Notas sobre um golpe – Por Leonardo Aragão

 

Por Leonardo Aragão*

 

Passadas menos de 24 horas da votação que decretou a admissibilidade da abertura de processo de impedimento da presidenta Dilma Rousseff, aqueles que estavam nas ruas protestando contra o golpe já devem estar se perguntando: Como chegamos até aqui? Por que isso aconteceu?

Algumas das muitas respostas possíveis estão em outubro de 2014. Enquanto entrávamos na dura batalha que culminou em vitória no segundo turno da eleição presidencial, soubemos que a mesma população que majoritariamente escolheria Dilma presidenta elegeu também a bancada de deputados federais mais conservadora desde a redemocratização, em 1985.

O circo visto ontem no Congresso, com as muitas alusões a Deus, à família, e até mesmo a torturadores da ditadura militar nada mais é do que um reflexo do que grande parte dos brasileiros digitou nas urnas em 2014, colocando no centro da articulação parlamentar grupos que estão acostumados com o fisiologismo tradicional da política brasileira. Matéria do portal “El País” aponta que 60% dos presentes na votação têm problemas com a Justiça, e 49% dos deputados federais têm parentes atuando na política, ou seja, foi feita uma opção pela tradição histórica de representação parlamentar no Brasil.

Sendo assim, o discurso de “traição” deve ser relativizado por nossa militância. A votação contra o golpe representou o tamanho da base real do governo na Câmara. Observem que segue exatamente o cenário apresentado na eleição de Eduardo Cunha à Presidência da Câmara. Em 01 de fevereiro de 2015, Cunha teve 267 votos, contra 136 do petista Arlindo Chinaglia, 100 de Júlio Delgado (PSB) e 8 de Chico Alencar (PSOL). Somando os votos de Cunha e de Delgado, cujo partido se aliou à direita, e contrapondo aos de Arlindo e Chico, o placar será muito parecido com o de ontem.

No entanto, não podemos baixar a guarda e crer que o jogo acabou. O processo seguirá no Senado e, para além da tarefa de arregimentar apoios dos senadores contra o impeachment, temos o desafio de denunciar o golpe em curso e dialogar com os setores não-organizados que não se alinham ao discurso de ódio perpetrado pela direita. A adesão significativamente menor dos manifestantes pró-impeachment aos atos convocados ontem dá indícios de um possível descontentamento com a solução proposta para substituição de Dilma, a dupla Temer-Cunha, nitidamente movida por interesses pessoais. Esse caldo de insatisfações pode e deve ser fruto de reflexões e diálogos dos que estão lutando pela democracia junto aqueles que têm real preocupação com os rumos do país.

 

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Leonardo Aragão é jornalista e militante do coletivo O Estopim

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